sábado, 26 de outubro de 2013

Acolher pra transformar

Tempos atrás assisti a um documentário no qual um cara fazia uma comparação entre o jogo de tênis e o frescobol. Chamava a atenção para que percebêssemos que no jogo de tênis a intenção é provocar o erro do adversário, enquanto no frescobol a intenção é possibilitar o acerto do seu parceiro de partida de modo que ambos mantenham a bola no ar pelo maior tempo possível. Brilhante!

No entanto, apesar das diferenças, tênis e frescobol têm uma característica comum: são dois esportes de reação. Com exceção do saque, todas as outras interações são reações à reação do outro. Não há recepção, só devolução. Não há acolhimento.

Essa reflexão me fez começar a observar os esportes com olhos mais apreciativos e nessa observação acho que encontrei um que pra mim é uma metáfora perfeita da vida, o vôlei.

Diferente do frescobol e do tênis, o vôlei não tem nada de reação. É pura ação. A bola vem do outro lado da quadra e você não reage, acolhe. Quanto melhor for sua recepção, melhor a bola será trabalhada e preparada para ser devolvida à quadra oposta. Mais que isso, se em vez de se preparar pra receber a cortada que vem da outra quadra, você achar que não merece aquilo, a bola será perdida. Não adianta fugir, não adianta fazer manha, não adianta chorar. Ou você honra o que a vida te manda ou não vai conseguir transformar. A transformação começa no acolhimento e quanto melhor você acolhe, melhor será sua capacidade de ação posterior. Além disso, no vôlei e na vida, o apoio de outros é fundamental para transformar o negativo em positivo. Sozinho fica quase impossível não entrar num ciclo de reações sem fim.
   

Outro aprendizado fundamental é que se às vezes pra colocar a bola no chão é preciso força, em outras basta jeito. Usar força quando o bloqueio é alto, fará a bola voltar pra sua quadra.

Por fim, apesar de acreditar no poder do acolhimento, esta postura receptiva não deve ser uma regra. Se você tem certeza que aquela bola não é pra você, basta subir à rede, saltar alto, bloquear e soltar um alto e sonoro:

- AQUI NÃO!!!

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Idiotas


Tem que ser muito idiota pra fazer testes em animais;
Tem que ser muito idiota pra não respeitar as diferenças;
Tem que ser muito idiota pra agredir alguém;
Tem que ser muito idiota pra pegar o que não é seu;
Tem que ser muito idiota pra falar o que não sabe;
Tem que ser muito idiota pra cuidar da vida dos outros;
Tem que ser muito idiota pra agir com desonestidade;
Tem que ser muito idiota pra pensar só em si mesmo;
Tem que ser muito idiota pra não querer ser feliz;
Tem que ser muito idiota pra fazer quebra-quebra;
Tem que ser muito idiota pra usar produtos sem saber a origem e a composição;
Tem que ser muito idiota pra não se compadecer da ignorância alheia;
Tem que ser muito idiota pra achar que existe a turma do bem e a turma do mal;
Tem que ser muito idiota pra acusar sem considerar o contexto;
Tem que ser muito idiota pra odiar sem espelhar;
Tem que ser muito idiota pra não respeitar a dor do outro;
Tem que ser muito idiota pra achar que desonestidade tem tamanho;
Tem que ser muito idiota pra achar que pode salvar alguém;
Tem que ser muito idiota pra viver gananciosamente;
Tem que ser muito idiota pra acreditar que tudo se resolve pacificamente;
Tem que ser muito idiota pra destruir o planeta;
Tem que ser muito idiota pra comer carne;
Tem que ser muito idiota pra afirmar que vegetais não sentem dor;
Tem que ser muito idiota pra preferir plástico a vidro;
Tem que ser muito idiota pra usar produtos sintéticos;
Tem que ser muito idiota pra viver na grande metrópole;
Tem que ser muito idiota pra criar um mundo paralelo;
Tem que ser muito idiota pra assistir tanta TV;
Tem que ser muito idiota pra se achar melhor que os outros;
Tem que ser muito idiota pra levar a vida tão a sério;
Tem que ser muito idiota pra escrever este texto;

Tem que ser muito idiota pra achar que só os outros são idiotas. 

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Três Mil


Brian estava  contente com seu novo trabalho. Havia sido contratado há um mês para o cargo de Analista Comercial Pleno II e meio pela Lim Sêrt Company, com salário de três mil reais, seu maior salário até então.

Certo dia, enquanto tomava um café na copa, a auxiliar de limpeza Diana lhe perguntou se ele poderia ajudá-la a fazer seu imposto de renda, já que ela não sabia mexer direito no computador. Brian ficou surpreso:

- Imposto de renda? Posso... mas acho que você não precisa declarar.

- A menina do RH disse que eu preciso sim, porque tem um dinheiro lá para eu resi... restu... res... ah, pra eu pegar de volta.

- Desculpe-me pela pergunta Diana, mas quanto você ganha?

- Ganho três mil.

Brian engasgou com o café. Nem terminou a conversa com Diana e subiu, com o peito estufado, para conversar com o diretor.

- Doutor Severino, posso conversar com o senhor um minuto?

- Sim, sente-se.

- É que eu acabei de descobrir que a moça da limpeza ganha três mil.

- E?

- E eu também ganho três mil.

- E?

- E não me parece justo.


- Não estou entendendo Brian. Quando você se candidatou, disse que queria o cargo de Analista Comercial Pleno II e meio, por isso foi contratado para este cargo. Se você tem interesse no cargo da Diana, nós temos ainda uma vaga aberta para aquele cargo. Você pode fazer os testes e estando apto, dou preferência pela sua transferência em vez de contratarmos alguém de fora.

- Não doutor, não é isso. Posso te fazer uma pergunta?

- Já fez, mas pode fazer outra.

- Quanto o senhor ganha?

Severino pegou seu holerite e mostrou a Brian. Brian riu desconfiado:

- Está faltando um zero aqui, não está?

- Não Brian. Aqui todos ganhamos três mil.

- Mas e os sócios?

- Somos só dois sócios, o Cícero e eu. Ele também ocupa uma diretoria e também ganha três mil. Aqui ninguém ganha sem trabalhar.

- Mas o senhor acha justo isso? Vi que o senhor fez MBA fora do país. Acha justo ganhar o mesmo que a Diana?

- O que você estava fazendo em 2006, Brian?

- Eu era estagiário na Sotnec  Sies.

- Então, 2006 foi o ano que eu fiz meu MBA. Também foi o ano que você trabalhou como estagiário na Sotnec  Sies. Foi o ano em que Diana nem conseguiu trabalhar porque estava cuidando da mãe doente. Percebe que todos nós fizemos coisas em 2006? Percebe nossas escolhas de acordo com nossas oportunidades?

- Percebo, mas continuo achando tudo isso muito estranho. Meu salário então sempre será três mil?

- Não, não. Se conseguirmos aumentar nosso faturamento e consequentemente nossa lucratividade, ano que vem você terá um salário maior.

- Só eu?

- Sim. Só você. Só eu. Só a Diana. E só todos os funcionários.

- Mas isso é desestimulante. A vontade que eu tenho sabendo disso é de sentar na minha mesa e não fazer mais nada. Pra que vou me dedicar?

- Olha Brian, você nos procurou dizendo que sabia e que gostava de atuar nesta função. Você tem uma descrição de cargo muito clara, com todas as atividades a serem desempenhadas. Se você não as realizar, é muito simples, você será demitido.

- Mas o que move as pessoas a crescerem aqui dentro?

- Isso você pode perguntar a cada uma delas.

- Só mais uma pergunta: o motoboy também ganha três mil?

- Não. O motoboy ganha mil e quinhentos.

- Ahhhhhhhh... sabia que tinha alguma coisa estranha.

Severino sorriu:

- Mas ele só trabalha meio período. 

segunda-feira, 25 de março de 2013

Dois no trânsito contra o lixo da cidade


By Antonio Gomes 


Uma ladeira estreita de passar um veículo, noite chuvosa e fria! À nossa frente, um caminhão de coleta de lixo parado não deixava espaço nem para uma mosca. Nós, eu no meu carro e o taxista logo à frente, esperávamos o trabalho dos coletores. 

Estávamos impressionados! Cada coletor fazia serviço de dois homens, - ou de dez? - colhendo aos montes sacos de lixo de um condomínio aqui, depois de outro ali e logo corriam mais à frente. Outros tantos sacos das residências ao lado. Na sequência, colhiam de um outro prédio... E assim iam, muito dedicados, ensopados e dando duro. Mas o caminhão, parado, não rendia centímetro no percurso. Impedindo passagem... Fazer o quê!

O taxista parecia cantarolar algo animadamente, paciente. Eu, bem cansado – tive um dia corrido pacas - também esperava, na minha. Atrás de nós a fila de carros aumentava. 

De repente, uma buzina desrespeitou o silêncio!

Eu e o taxista nos fizemos de surdos – ao menos eu me fiz – sabe-se lá se alguém teria esbarrado no botão. Era evidente que o esforço daqueles trabalhadores subindo ladeira, debaixo de chuva, naquela rapidez! Era algo a ser admirado qual um concerto de Mozart: em respeitoso silêncio!

Mas nem tão de repente, nem casual, ouvimos outra buzina...

E os coletores voavam pelas calçadas cobertas de imundos sacos pretos, jogando o que podiam dentro do caminhão, quase se jogando sobre os restos da cidade, que, lógico, não podia parar um minuto...Corriam desesperados, mas alguns até sorriam durante a labuta. Impressionante!

Mais uma buzina e pronto! O taxista - um brutamontes de sensatez - colocou o rosto pela janela e olhou para trás impaciente. Olhei para ele, também inconformado. Afinamos-nos 

- Quem diabos teria tido a coragem de buzinar contra aqueles caras? – Adivinhei seu pensamento.

Outra buzina foi o suficiente!

O taxista, um senhor mais gordo, esforçava-se por sair do táxi... Quando percebi, eu também estava abrindo a porta do meu carro e, do alto dos meus um metro e sessenta e poucos de imponência masculina, ao lado da porta, gritei pro mundo!

- Olha a falta de respeito com o trabalhador! Ou alguém aí tá a fim de ajudar a pegar lixo?

Percebi que funcionou, aliás, mais do que esperava, quando, olhando para trás, descobri o motivo! O taxista fazia às vezes de um guarda costas – e de respeito! – e ele emendou:

- Seu bando de lixo!

Não podia ser melhor! Chovia forte. Mas, naquele instante, qualquer um conseguiria ouvir cada gota de chuva que caia ao chão. A cidade literalmente se calou! 

De repente, intuí exatamente onde estava a imundice dessa cidade e não era entre seus coletores e nem dentro dos sacos pretos que carregavam; nem mesmo nos aterros sanitários. O lixo maior dessa urgente capital está na prevalência daquilo que é particular sobre o que é de interesse público... A mais abjeta falta de respeito à coisa pública era, e ainda é, o que mais fede, nessa, que é uma das maiores urbes da América neo libertina!

domingo, 6 de janeiro de 2013

Não é brincando de boneca que teremos homens melhores


Hoje Leonardo Sakamoto, que eu admiro e respeito, publicou o texto abaixo:

Por uma sociedade melhor, meninos deveriam brincar de boneca e de casinha 


Embora eu concorde com várias das colocações, algumas me causaram muito incômodo.

Concordo que meninos não devem ser privados ou proibidos de brincar de boneca e de casinha, mas não concordo que isso tenha que ser estimulado. Muito menos em detrimento da brincadeira com espadas como ele cita no texto. Coloque a espada e a boneca em frente ao menino e veja o que ele escolhe. E não tem problema nenhum ele escolher a espada. É natural, é da essência, vem no DNA. Ninguém se torna violento por brincar de espada ou de luta e agressividade não é algo que precise ser programado no homem. A agressividade é fruto de uma energia muito forte, natural nos meninos, mal canalizada e mal empregada. Meninos, mais que meninas, precisam gastar energia, precisam de desafios, precisam correr, subir em árvore, nadar, lutar e extravasar. A falta desta explosão é um dos fatores que vai gerar homens agressivos na idade adulta e a falta de espaços e atividades para que esta energia seja gasta também pode fazer com que meninos se tornem agressivos. 


Se o menino quiser brincar de casinha, ótimo. Se quiser brincar de boneca, ótimo. Assim como toda e qualquer brincadeira dita ‘de menina’, mas vamos deixar ele escolher e vamos aprender a lidar com essa energia masculina sem nos assustarmos e sem ficarmos podando os meninos a cada vez que começam a duelar. Eu brinco de luta com meu sobrinho de 4 anos desde que ele tinha 2 (por iniciativa dele) e o menino é um doce e não levanta a mão para dar um tapa em ninguém, nem mesmo em mim depois que a brincadeira acaba. Talvez se ele fosse privado deste tipo de brincadeira, se disséssemos a ele que é feio, ele estaria acumulando toda essa energia para soltar sei lá onde e muito menos de que maneira.

Agora, sobre a divisão das tarefas no lar e a compreensão pelos meninos de que isso é também tarefa deles, isso será compreendido facilmente desde que ele veja pai e mãe em parceria tanto nos cuidados do lar quanto nos cuidados com a educação dele. É recebendo carinho e participando de uma família harmoniosa que este menino se tornará um homem carinhoso e sensível.

Mas aqui também é preciso ser cuidadoso porque senão a gente entra numa lógica de que todo mundo tem que fazer tudo e isso não funciona. Não consigo achar natural o homem de avental na beira da pia lavando louça enquanto a mulher leva o carro no borracheiro para consertar o pneu. Mas acho normal o homem lavar louça (sem avental) enquanto a mulher coloca a criança pra dormir.  Acho que a questão não está no lavar louça, passar roupa ou limpar o chão. A injustiça está sim no tempo que sobra para o ócio de cada um. O ócio precisa ser compartilhado. Direitos iguais para o ócio. O que não está certo é o homem deitado no sofá depois de um longo dia de trabalho enquanto a mulher se acaba nas tarefas domésticas, também depois de um longo dia de trabalho. Se cuidarmos para que homem e mulher sejam uma equipe que só descansa quando o jogo acabar e que o jogo acabe ao mesmo tempo para ambos, aí o troféu fica bem dividido. 

De volta à realidade




Nesta época do ano, em que muitas pessoas terminam o período de férias e retornam ao trabalho é comum ouvir a frase “de volta à realidade”.

Diante do lamento de tantas pessoas, me vêm algumas perguntas:

- o descanso não foi real?
- a praia não foi real?
- o ócio não foi real?
- a preguiça não foi real?
- acordar tarde não foi real?

E a grande pergunta que contém todas as anteriores:

O PRAZER NÃO É REAL?

De onde vem essa mania de achar que nosso destino é sofrer? Culpa do Freud?

Quando você considera que o sofrimento é a realidade, dificilmente conseguirá se livrar dele.

Se as pessoas dissessem: “de volta à chatice” eu compreenderia porque realmente o mundo está repleto de gente que tem uma vida chata e que só consegue se livrar da chatice nas férias.

Mas se o problema for esse, tem cura.

Vida chata dá pra mudar. 

Roniel Lopes

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Bugs terapêuticos

By Roniel Lopes




  1. Um psicólogo disse que, para curar-se, seu paciente deveria parar de projetar. No dia seguinte o rapaz pediu demissão de seu cargo de projetista na Volkswagem e está desempregado até hoje.
  2. Um psicólogo Junguiano contou ao paciente que toda a raiva dele estava retida na sombra e agora ele só quer ficar no escuro.
  3. Uma psicanalista disse para o paciente com histórico edipiano que para amadurecer ele teria que matar a mãe. O enterro foi ontem à tarde.
  4. Após uma sessão de Reiki o terapeuta comentou que a paciente estava com pouca energia nas mãos. Ela foi pra casa e enfiou as duas mãos numa tomada de 220 volts.
  5. Uma terapeuta transpessoal falou que ia ajudar o paciente na expansão da consciência. Ele nunca mais voltou na sessão, com medo dela rachar sua cabeça.
  6. Uma psicóloga falou para a paciente espanhola tentar prestar bastante atenção nas ‘personas’. Agora a moça anda por aí encarando todo mundo.
  7. O terapeuta corporal falou para a paciente tentar respirar no abdómen. Ela foi pra casa e fez uma traqueostomia abdominal caseira.
  8. A terapeuta holística explicou que o floral ajuda a equilibrar as emoções e agora, sempre que a paciente chora, fica contando a quantidade de lágrimas que sai de cada olho.
  9. Durante uma Constelação Familiar o terapeuta falou que o grupo iria entrar no campo familiar. Um dos participantes imediatamente entregou-lhe as chaves da fazenda da família.
  10. Ao entender que o segredo da Acupuntura é colocar as agulhas nos principais meridianos, uma paciente pegou o mapa mundi, espetou o meridiano de Greenwich e agora espera ansiosamente que suas dores passem.
  11. Após se submeter a uma sessão de Cromoterapia e entender o poder das luzes coloridas, um paciente nunca mais desmontou sua árvore de natal.
  12. Ao final de uma sessão de Arteterapia, a terapeuta orientou o paciente a ir para a casa e tentar se colocar inteiro no papel. Ele acordou todo dolorido depois de passar a noite toda encolhido em cima de uma folha de flip chart.

sábado, 2 de junho de 2012

Flertando sozinho

Numa tarde ensolarada em São Paulo, eu aguardava numa esquina para atravessar a rua. O semáforo fechou para os carros e comecei a caminhar pela faixa de pedestres. Ainda nos primeiros passos me deparei com um lindo par de olhos que me observava por detrás do parabrisas. Continuei caminhando, mas agora sem perder a conexão que me parecia ir tornando-se cada vez mais forte.



À medida em que eu avançava, os pescoços precisaram se ajustar para que os olhos não perdessem a conexão. Cheguei do outro lado e ao passar então ao lado daquele carro notei que não eram somente os olhos que participavam daquela conversa.

Discretamente, uma delicada mão pegava a bolsa que estava sobre o banco do passageiro e a escondia no chão atrás do seu próprio banco.

Bobinha... o que eu queria roubar dela nem estava dentro daquela bolsa.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Porque eu quis


Dia desses minha namorada me perguntou ao telefone:

- Porquê você ficou trabalhando até agora?

A resposta veio fácil, mas hesitei em dizer a verdade. Comecei a pensar em respostas que pudessem justificar o meu comportamento, pois já sabia que a verdade poderia doer. Encontrei rápido algumas justificativas possíveis: "ah, tive que ficar pra terminar umas coisas" ou "porque é rodízio do meu carro (e era mesmo)"...
 
Enfim, nesses 2 segundos entre a pergunta e a resposta, consegui encontrar os argumentos 'adequados' para não precisar dizer a verdade e não correr o risco de chocá-la.
 
Mas... não resisti.
 
Estou numa fase de experimentar minha autenticidade, então respirei fundo, tentei colocar carinho na voz e disse:

- Porque eu quis.

Como eu já imaginava, a reação dela foi:

- Nossa! Que mal educado.

E daí seguiu-se uma conversa bacana na qual eu expliquei a ela o que vou explicar aqui.

Eu não quis, de maneira alguma, ofendê-la, ser grosso, desconversar, nada disso. Seria inclusive muito mais fácil usar uma das outras respostas que me surgiram no meu breve momento de hesitação, mas eu precisava experimentar. A resposta verdadeira era essa. Eu só fiquei até aquele horário porque eu quis. A escolha foi minha.
 
Reconhecer o meu QUERER, agir de acordo com ele e bancar minhas escolhas. É isso que tenho buscado.
 
E me desculpem se em alguns momentos parecer grosseria. É só sinceridade!

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Aprofundando nossa conversa sobre a espiritualidade
Patricia Gebrim


Em meu último artigo, escrevi sobre a importância da "espiritualidade". Tenho no entanto percebido, ao usar esse termo, que é muito comum ocorrerem uma série de mal entendidos. As pessoas confundem espiritualidade com religiosidade, outras vezes misturam espiritualidade com espiritismo ( doutrina baseada na crença da sobrevivência da alma e da existência de comunicação, por meio da mediunidade, entre vivos e mortos, entre os espíritos encarnados e os desencarnados.) e por aí vai. Por esse motivo, escrevo um pouco mais detalhadamente sobre o assunto.

Antes de mais nada, espiritualidade e religiosidade são coisas diferentes. Uma pessoa pode ser espiritual sem ser necessariamente religiosa. Não precisa frequentar uma igreja, templo ou sinagoga, não precisa seguir um conjunto de regras para se comunicar com Deus. Basta que acredite na existência de algo maior, que paire além do mundo da matéria.

As religiões deveriam, por regra, estar embasadas em uma espiritualidade profunda, no entanto nem sempre isso acontece. É possivel que uma pessoa siga uma religião sem que de fato exista uma gota de espiritualidade em sua vida. Seguir rituais apenas porque estão escritos em um livro qualquer, repetir orações decoradas sem que exista um sopro de alma em suas palavras ou pensamentos, será isso algo que possa ser chamado de espiritual?

Se você acredita ou segue uma religião, eu lhe diria: - Não deixe de ser espiritual! Se a sua religião lhe diz que você deve rezar, reze; mas não deixe de falar também com o Deus que mora dentro de você. Se a sua religião lhe diz para jejuar, jejue; mas preste também atençaõ ao que sai da sua boca. Se a sua religião o estimula a ler um livro com ensinamentos, leia; mas que palavra alguma o impeça de olhar no fundo dos olhos das pessoas que convivem com você, porque é lá, por trás das pupilas, que mora a alma, à espera de ser revelada.

Nunca deixe de buscar, em cada ser vivo, a sabedoria viva, pois essa energia grande e luminosa, chamada por muitos de Deus, mora dentro de cada pessoa, de cada animal, de cada árvores, rio, pedra ou nuvem. Deus, ou como queira chamar essa energia, está em tudo e saber disso é ser espiritual. Não existe uma espiritualidade única, embora a espiritualidade, quando efetiva, sempre leve a um mesmo lugar, um lugar de mais harmonia, mais amor, mais respeito pelo próximo e pela vida, mais entendimento. Se algo causa desarmonia, desamor, separação; não importa o rótulo que carregue, está carente de espiritualidade. Se as religiões fossem sempre espiritualizadas de fato, nunca existiriam guerras religiosas. Não há nada menos espiritualizado do que agredir, ofender ou matar "em nome de Deus". A distorção humana tem se utilizado da religião para cometer barbáries e a nossa falta de consciência tem permitido que isso se estenda e perpetue.

Espiritualidade é um estado no qual temos a consciência de que tudo ao nosso redor, e dentro de nós, está interligado. Quando deixamos para trás a separatividade e nos sentimos conectados a tudo o que nos cerca, nos tornamos espirituais, mesmo que não sigamos nenhuma religião específica.


Como posso me tornar mais espiritual?

A espiritualidade acontece no agora. Sem passado, sem futuro. Ser espiritual e éstar presente em cada momento da vida, vivendo com toda a plenitude aquele momento, seja ele qual for. Assim, se você deseja se tornar mais espiritual, não é necessário que siga regras ou rituais complicados, que acabam colocando a espiritualidade longe de você. Está tudo aqui, agora mesmo, ao seu lado, na sutil presença deste momento. Olhe para si mesmo, para o que está ao seu redor, para o planeta, para a natureza, para os seres vivos. E faça o seu melhor. É simples. Você já está deitado no berço da espiritualidade e é lá que permanecerá, sempre, quer tenha consciência disso ou não.

Encontre seu próprio caminho. Ouça sua intuição. Cada pessoa tem a sua forma espiritual de ser. Cada pessoa se conecta com o divino que tem dentro de si de uma maneira. A maior parte do que eu aprendi sobre o que é a espiritualidade vem das sensações que eu tinha quando, ainda criança, me deitava sobre um colchonete e observava o céu cheio de estrelas.

Espiritualidade é o que nos sustenta quando tudo o mais parece nos abandonar. Sabe aqueles momentos em que nos sentimos derrubados, pequenos, sem saída; quando tudo ao nosso redor parece ter se voltado assustadoramente contra nós e ainda assim algo lá dentro de nós acredita que vai ficar tudo bem? Isso é espiritualidade.

Espiritualidade é acordar e se sentir vivo, é respeitar as pessoas, é agir de maneira saudável e inclusiva. A espiritualidade se manifesta em pequenas coisas. Num ato de gentileza, na abertura para ajudar outro ser vivo, na forma como tratamos cada ser que cruza o nosso caminho. Quando no, trânsito, damos passagem a uma pessoa, sabendo que ela pode estar tão ou mais apressada do que nós; isso é espiritualidade. Quando olhamos nos olhos de uma pessoa que nos atende do outro lado do balcão, e tentamos tornar aquele pequeno encontro mais significativo, nos lembrando que aquela pessoa, como nós, tem suas tristezas, desafios e alegrias; isso é espiritualidade. De que adianta passar o dia rezando na igreja, se depois tratamos mal as pessoas com as quais convivemos? De que adianta decorar e repetir palavras sagradas nos templos, se em nosso dia a dia dizemos palavras ofensivas? De que adianta cumprir dietas restritivas sugeridas por nossa religião, se para isso desrespeitamos quem preparou nosso alimento?

Perceber o outro. Honrar o outro. Olhar nos olhos das pessoas.

Aprender a amar (não nascemos sabendo).

Isso é espiritualidade.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Trate os outros da maneira que você gostaria...


Como você completaria esta frase? Acredito que a maioria das pessoas completaria com:

... de ser tratado.
“Trate os outros da maneira que você gostaria de ser tratado.”
Eu mesmo já aconselhei muitas pessoas com esta singela frase. Acontece que não é o jeito que você trata alguém que vai determinar o jeito com que este alguém te tratará. E pior, se para tratar alguém bem você teve que deixar de ser espontâneo, quando perceber que a reciprocidade não ocorreu, ficará frustrado por ter aberto mão de quem você é, por ter se esforçado para tentar criar no outro uma resposta que acabou não vindo.
Assim, não mais darei este conselho a ninguém. Meu conselho agora é:
Trate os outros da maneira que você gostaria... de tratá-los.
E assuma responsabilidade por essa atitude.
Pode ser que com isso você receba menos carinho, mas certamente receberá mais VERDADE.
E o segundo conselho que quero mudar a partir de hoje é:
“Nunca peça que uma pessoa te dê aquilo que você não é capaz de dar a ela.“
E quem foi que disse que somos iguais? Quem foi que disse que temos os mesmos recursos e disponibilidades?
A gente só dá o que tem. E temos coisas diferentes. Com isso, minha nova frase será:
Nunca peça que uma pessoa te dê aquilo que ela não tem.
Melhor mesmo é não pedir nada e receber de coração as preciosidades que cada um tem para te oferecer. Melhor é ser você mesmo e deixar que os outros também sejam... eles, não você.
Roniel Lopes

domingo, 23 de outubro de 2011

Carta às mulheres

Dia desses recebi, mais uma vez, um daqueles textos que exaltam a mulher que hoje consegue ocupar todos os espaços que antes só eram ocupados por homens. Quem dissemina esses textos sempre são mulheres e isso é feito com uma alta dose de orgulho. Juro que entendo esse orgulho. Orgulho de quem conseguiu chegar lá, onde mora o reconhecimento, nesses lugares que só os homens ocupavam. Me estranha somente que vocês tenham aceitado buscar o reconhecimento desse jeito, tendo que abrir mão de sua essência.

Eu não tenho dúvida de que vocês são capazes de trabalhar como ‘pedreiro’, motorista de ônibus, policial. Acontece que sua pele não foi feita para sujar de cimento, a estrutura de seus braços não foi feita para virar volante de ônibus e seu corpo não foi feito pra andar fardado.

Nosso país é machista, nosso sistema é capitalista e nossa sociedade é ‘esteticista’. Isso faz com que o grande sonho da maioria seja “ser um homem rico e bonito”. A tragédia acontece quando esse se torna também o sonho das mulheres, sem qualquer adaptação na sentença.

Eu quero saber quem é que vai cuidar do feminino.

Eu sei que os homens estão “frouxos”, mas vocês vão fazer por nós? Não seria melhor se vocês nos ajudassem a sermos mais fortes? E se nós parássemos de competir?

Aí vocês vão dizer que é fácil para um homem propor o fim da competição, afinal, parece que nossa situação é mais confortável. Talvez seja mesmo, mas vocês têm o poder de mudar isso.

O meu profundo desejo em construir parcerias (sejam amorosas ou profissionais) verdadeiras com mulheres me fez ir em busca de fortalecer o masculino. Eu quero ocupar meu lugar e quero ajudar as pessoas a ocuparem os delas. Quero construir parcerias nas quais masculino e feminino encontrem equilíbrio e é por isso que tenho caminhado na busca de completar esse arquétipo masculino, dando assim espaço para que a mulher possa acolher seu feminino. Masculino e feminino equilibrados fazem uma dança linda.

Acontece que de tanto se machucarem vocês desaprenderam a receber.

- Posso te ajudar com as compras?
- “Não precisa”.

- Deixa que eu pago.
- “De jeito nenhum! Faço questão de dividir”.

- Te pego então às nove.
- “Não precisa. Eu vou com o meu carro e a gente se encontra lá”.

Tenho convivido com muitos homens que estão tentando ser e fazer diferente, mas não estão encontrando espaço. Posso garantir que esse grupo de ‘novos homens’ vai crescer muito nos próximos tempos. Estamos nos organizando, não para combater, mas para fazermos nossa parte. Cada vez mais existirão homens capazes de cuidar, de proteger, de dialogar, de compreender e de realizar, mas para que tudo isso apareça será fundamental que o feminino aprenda a receber.

Vocês estão buscando o poder, mas tenho certeza de que não é isso que querem. Esse é o jeito que encontraram para ter o que não estavam conseguindo ter de outra maneira. Sou capaz de apostar que o que vocês mais querem é ser amadas. Amor de verdade, com respeito, compreensão, espaço, parceria e tudo o que o amor envolve. Principalmente você que está balançando a cabeça e dizendo que isso não se aplica a você.

O mundo precisa desesperadamente do amor e da harmonia que só vocês podem oferecer, precisa que vocês reduzam a força do braço e coloquem força no abraço.

E que fique claro que não estou falando de submissão. Estou falando de uma harmonia que pode ser criada quando cada um oferece o que tem de melhor.

Roniel Lopes
representando o universo masculino

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Meninas e mulheres


Meninas fazem chantagem emocional, mulheres dizem exatamente o que estão sentindo.
Meninas disputam poder com os homens, mulheres conhecem perfeitamente seu poder e por isso abrem mão dele para receber gentilezas.
Meninas querem um pai ou um filho, mulheres querem um companheiro.
Meninas querem se acabar na balada, mulheres querem sair pra jantar (e uma baladinha de vez em quando, claro).
Meninas cozinham por obrigação, mulheres cozinham por amor.
Meninas querem alguém para dar sentido às suas vidas, mulheres querem alguém para caminhar juntos.
Meninas querem alguém que lhes dê colo, mulheres querem alguém que lhes dê a mão (e colo).
Meninas acham que seu companheiro é culpado por sua TPM, mulheres também...

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sexta-feira, 8 de julho de 2011

Sobre fuga


A gente foge.
Todo mundo foge.
E tem horas que a gente tem que fugir mesmo, porque não estamos prontos para enfrentar determinada situação.
Não vejo problema em fugir, desde que a gente se observe e perceba que está fugindo.
Também não acho que a gente precise entender os motivos da fuga.
Só precisamos mesmo prestar atenção e ver quais situações nos provocam fuga.
E aí, conhecendo essas situações podemos ir arriscando cada vez ir um pouquinho além, pra ver como a gente se sente.
Com o tempo as coisas se ajeitam dentro da gente e paramos de fugir.
E é um orgulho imenso poder dizer "essa situação já não me assusta mais".
Tudo tem seu tempo.